quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Pianinho - Capitulo 3

Line chegou em casa, jogou os sapatos em um canto da sala, e sentou-se no velho sofá macio de couro branco. A menina fechou os olhos por alguns instantes, tentando imaginar como foi a festa de ontem, mas o telefone a interrompeu com o seu toque ensurdecedor. Ela se levantou do sofá com os dedos cruzados, em sua mente ela só pedia uma coisa, que aquela ligação fosse do Rodrigo:


-Alô?

-Oi Line, - E mesmo sabendo que Rodrigo nunca iria ligar, a menina se decepcionou, era o seu pai na linha, - está tudo bem com você?

-Sim, pai.

-Eu preciso de um favor, querida.

-Fala ai. –Line já estava sem paciência, e lhe passou pela cabeça que Rodrigo nem ao menos sabia o seu numero.

-Preciso que você vá ao mercado hoje por mim, por favor?

-As compras de sempre?

-Isso, linda.

-Tá bom pai, preciso desligar, tchau! – E ela colocou novamente o telefone no gancho, e nesse momento nem se lembrava mais o porquê seu pai havia ligado.

Ainda decepcionada pela ligação de seu pai, a menina subiu as escadas e se fechou em seu quarto. Sentou-se no tapete encostada em sua cama, em frente a um grande espelho que ia do chão até o teto. Line se encarava com raiva nos olhos e pensava na sua vida. “Uma menina de 15 anos, que não é muito bonita. Alguém que não repete o ano escolar por pouco. Alguém que mal fala com os pais, mas não sente falta deles. Alguém que costumava ter muitos amigos, e hoje, tem pouquíssimos colegas, e passa a maior parte do tempo ocupada demais cuidando de um garoto drogado de dezoito anos ou sonhando com ele, e isso por livre e espontânea vontade. Espere, livre e espontânea vontade? Talvez nem tanto assim, aquele menino é sua responsabilidade, a garota não poderia simplesmente deixar aquela ‘criança’ se virar sozinha, ela sabia que ele não tinha apoio dos pais, e isso pode parecer complicado, pois até Line se sentia confusa quando pensava nesse assunto ‘Uma menina sentir necessidade de cuidar de alguém mais velho’. Ela só tinha certeza de duas coisas : Ela precisava dá-lo apoio. Ela se arrependera do dia em que o conheceu.”

Line se levantou do chão e deitou-se na cama, com os minutos se passando, ela finalmente conseguiu dormir.


continua...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pianinho - Capitulo 2

O olhar frio de Rodrigo percorreu seu rosto, a menina entra no lar observando a bagunça que se espalhava por toda parte. Copos e garrafas vazias jogadas pelas mesas e os tapetes que um dia já foram brancos, estavam repletos de manchas vermelhas, onde certamente derrubaram vinho, livros caídos no chão, cacos de vidro espalhados pelos cantos da sala. Line já percebera que houve uma festa naquela casa, ela se virou para Rodrigo, que estava completamente pálido e com enormes e escuras olheiras, o garoto não parecia nada bem. E para interromper o silêncio a menina o perguntou:


- Foi boa a festa ontem?

Em resposta, silêncio. Line sabia que nunca seria convidada para nenhuma festa que ele desse, mas sempre lhe vinha um gosto amargo na boca quando sabia que não havia participado. Rodrigo continuava sem falar palavra alguma, a garota virou os olhos para o relógio preso na parede, suficientemente alto para que os convidados da festa de ontem não o destruíssem. Os ponteiros indicavam 10:42 da manhã, preocupada com seu ’amigo’, Line o pergunta:

- Você já comeu? – Os olhos do garoto viram-se para o seu rosto.

- Ainda não. – Sua voz rouca e cansada percorreu pela sala bagunçada, ele parecia mesmo muito exausto. Line começou a se perguntar se deveria ou não ter ido visitá-lo, mas resposta nenhuma passou por sua mente. E ao perceber o esforço que Rodrigo fez para respondê-la, a garota desistiu de tentar conversar com ele, apenas assentiu com a cabeça.

-Ok, vamos lá.

Ela o empurrou escadas a cima, e o levou ao seu quarto que para sua surpresa, estava arrumado, e então passou pela sua cabeça, que a festa se limitara apenas ao andar de baixo. O que de certa maneira a deixava feliz em pensar que Rodrigo não dormira com nenhuma garota esta noite, Line se sentia estranha ao ter esses pensamentos, mas era realmente isso que ela sentia. A garota pediu para ele deitar-se, e acostumado com os seus cuidados o menino assim fez, ela pegou um cobertor que estava dobrado em seus pés, e o esticou até a cintura de Rodrigo que naquele momento, mais parecia uma criança doente. Ela se levantou da cama e fechou as longas cortinas azuis, deixando somente a luz do quarto acesa.

Line desceu as escadas e foi até a cozinha abrindo os armários, a garota encontrou uma caixa de cereal e o despejou em uma tigela azul. Abriu a geladeira, pegou a caixa de leite e misturou com o cereal, pegou uma colher na gaveta, encheu um copo com água e os colocou em cima de uma bandeja. Ela foi até o quarto do menino e colocou a bandeja em seu colo, se levantou e andou até o armário do banheiro, e pegou o primeiro remédio para dor de cabeça que encontrou, Dipirona. Retirou dois comprimidos da cartela e voltou ao quarto onde o garoto estava sentado na cama, comendo o cereal.

Line entregou os comprimidos na mão dele, em pé ao seu lado assistiu Rodrigo tomar o remédio e voltar a comer. Ele devolveu a bandeja a ela, que a colocou em cima da escrivaninha do computador, e continuou a observar o menino que esticou as pernas, se cobriu até os ombros e fechou os olhos. A garota apagou a luz, e esperou o menino cair no sono.

Minutos depois, certa de que Rodrigo já estava dormindo, Line chegou perto de seu rosto, lhe deu um beijo na testa e se retirou do quarto. Saiu daquela casa certa de que a qualquer momento a empregada chegaria e arrumaria toda a destruição que ele causara. A menina olha em seu relógio - 11:57 - passou em sua cabeça que ela poderia ter ficado um pouco mais de tempo lá, afinal, chegaria em casa e não teria mais nada a fazer mesmo. Ela continuou a andar até a estação de metrô, e assim voltara pra casa naquele sábado cinzento.

continua...

Pianinho - Capitulo 1

A casa estava silenciosa, era sábado de manhã e Line já se acostumara com isso. Há quase seis anos seus pais só aparecem em casa à noite e levantam muito cedo para trabalhar, algo que Line sempre achou muito inútil, afinal, eles já viviam muito bem. Mas a solidão foi algo que ela se acostumou, “Não é possível sentir falta de alguém que não se conhece” era isso que Line dizia pra si mesma. Os corredores brancos estavam impecavelmente limpos, como sempre. Line pega o dinheiro que estava em cima da mesa, calça suas botas e sai porta a fora.


A menina põe as mãos nos bolsos do casaco, fazia muito frio em São Paulo, e desacostumada Line saiu de casa sem luvas. Uma forte brisa batia em seu rosto, a fazendo fechar os olhos.

Enquanto andava pelas ruas, ela observava um casal que andava em sua frente há algum tempo. Eles estavam de mãos dadas, e o frio não parecia os incomodar pois estavam tão felizes rindo de alguma coisa. Line sentia uma ponta de vontade de perguntá-los o que era tão engraçado, mas algo a dizia que isso não seria muito educado. A garota vira a esquina e entra na estação de metrô.

Suas mãos estavam tremulas como sempre, isso acontecia todo sábado antes de chegar ao seu destino. Ela estava sentada, e podia ouvir o que o homem ao seu lado escutava pelos fones de ouvido, os rostos de todas as pessoas lá presentes, estavam tristes e apagados. Line já estava preparada para o que aconteceria em breve.

Ao sair da estação, um vento forte machucava seu rosto. E a garota prestava atenção nas pessoas ao seu redor, o frio a fazia querer voltar para casa, mas ela tinha seu compromisso. Nada a faria recuar.

Andou por alguns minutos nas ruas daquele bairro muito bem conhecido. E ao parar em frente a uma enorme casa branca sem portão algum mas muito bem escondida pelos grandes arbustos podados, ela anda jardim a dentro e cessa em frente a uma grande porta branca de maçaneta dourada.

Vagarosamente Line colocou a mão na capainha e a pressionou. Como de costume nada acontecera, nenhum movimento dentro da casa, nem ao menos uma lâmpada acendera. A garota já havia se preparado para sua longa jornada em frente aquela porta apertando a campainha. Ela não desistiria, já estava acostumada em ficar esperando do lado de fora daquela casa. O frio já não a incomodava, e ela não estava cansada, sabia que em algum momento ele desistiria. E assim se fez, após alguns minutos apertando a campainha freneticamente, o garoto cedeu e foi abrir a porta para que Line pudesse entrar em sua casa.

continua...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Certezas

Não é preciso abrir os olhos, você já sabe onde está. Você está na sua casa, trancado no seu quarto, enrolado em um cobertor e deitado na sua cama.


Não é preciso abrir os olhos, você já sabe o que está acontecendo. Está chovendo lá fora, o cobertor está te pinicando, seus pais já foram trabalhar, um de seus travesseiros está caído no chão e o outro está pesando em seu tórax.

Não é preciso abrir os olhos, você já sabe o que vai acontecer. Seus pais irão te ligar para que garantir que está acordado, você descerá as escadas, ligará a televisão e começará a assistir secretamente uma maratona de desenhos animados, tomará seu café da manhã e provavelmente voltará a dormir.

Não é preciso abrir os olhos, você lembra do que aconteceu ontem a noite. Espere, você não lembra de absolutamente nada do que acontecera.

Você abre os olhos, e não está no seu quarto, não há um travesseiro caído no chão. As janelas estão escancaradas. E no seu peito nu, uma garota ruiva dorme. Como quem ainda não percebera que o garoto não era seu travesseiro

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Visitas - parte 2

A casa era escura e muito fria, meu coração batia na velocidade da luz. Apressei meu passo enquanto passava a mão nos empoeirados aparadores de madeira escura. O frio icomum me irritava, grandes e antigos livros de medicina ficavam em preteleiras ao lado de caixas de primeiros socorros. Ao meu lado, facas e tesouras reluzentes estavam enfileiradas.
    Eu senti algo entrando em meu dedo, e rapidamente tirei minha mão do móvel. Lá estava um bisturi, extremamente afiado e tão reluzente quanto as facas, por sua causa, no meu dedo escorria um filete de sangue.
    Olhei a minha frente, e sentado em uma cadeira de plástico nos fundos da casa, estava aquele homem que vem me importunando há muito. Ele sorri pra mim. O que me deixa feliz, pois dentro daquela casa estava realmente muito frio. E acabo de me dar conta de que nunca o vi sem um cigarro na boca. Este levanta de sua cadeira e me diz com uma voz rouca:
    -Olá, Eduarda. - Em minha mente eu procurava descobrir como ele sabia o meu nome, será que eu já me apresentei pra ele alguma vez? Alguem já conversou com ele sobre mim? Eu já conversei com ele?
    - Olá, você - Era o máximo que eu poderia responder. - E meu nome? -Foi a única coisa que saiu da minha boca, quando na verdade eu queria apenas que ele me respondesse como ele sabia o meu nome.
    -Como eu sei o seu nome? - Ele era realmente muito bom em adivinhação.
    -É.- Parei para respirar, e continuei dizendo. - Agente já conversou alguma vez? Ei espera ai , voce anda me espionando?
    -Bom Eduarda, se alguem anda espionando aqui , ambos concordaremos que não sou eu. - Sua voz era de um fumante nojento. A cada frase, ele dava um tragada no cigarro. E seus olhos pretos me davam frio na barriga.
     - Você sabia que eu iria entrar, não é?
     -Claro. -Ele sorria pra mim como se algo realmente engraçado estivesse acontecendo.
     -Posso te perguntar uma coisa?
     -Pergunte, não garanto respostas.
     -Qual é o seu nome? - Mesmo tentando não parecer intrometida, eu realmente queria saber seu nome.
     -Você não precisa saber. -Disse ele cruzando os braços
     -Está bem. - Eu não poderia insistir muito afinal eu estava na casa dele, e de penetra. -É... porque você está sempre fumando? - Em resposta disso, ele tirou o cigarro da boca e o jogou no chão.
     -Viu? Não é sempre - Me respondeu risonho
     -Porque você não fala com ninguem por aqui?- Ele tirou um pacote de Marlboro do bolso, e hábilmente com a outra mão retirou um isqueiro do bolso e ascendeu um cigarro.
     - Eu não não gosto das pessoas por aqui. - Eu realmente me senti ofendida.
     -Então é por isso que vem tantas mulheres aqui no meio da noite?- O homem começou a rir frenéticamente, como se eu tivesse falado algo engraçado. Eu me sentia desconfortável, e a porta de vidro abriu, trazendo o vento gelado de dentro da casa. - Por que sua casa é tão fria?
     - Vá olhar no freezer Eduarda.
     -O que?
     -Vá olhar dentro do freezer. - Ele me disse com segurança.
     Fui até a cozinha de sua casa. e abri o freezer.Não pude acreditar no que vi lá dentro, aquele líquido vermelho, escorria pelas prateleiras congeladas e chegava no meu pé.
     Eu consiguia sentir sua respiração em meu pescoço.

 FIM.
 
     

Visitas - parte 1

Há muito tempo eu o observava. Esperava saber o que acontecia em sua casa enquanto eu a vijiava. Pouquissímas vezes consegui perceber algo suspeito como, ele ir fumar na soleira da porta, ou aparar a grama, quase todos os dias, mulheres bonitas e bem vestidas entravam em sua casa no meio da noite. Mas nunca houve nada mais interessante que isso. Da janela do meu quarto eu podia vê-lo. Sua casa era em frente a minha.
Já eram três horas da tarde da uma quarta feira infernal. Eu acabara de voltar da escola, e a porta do meu vizinho, estava aberta. Pensei seriamente em entrar na minha casa, ligar o computador e mofar em frente a uma tela LCD de 29 polegadas pelo resto dia ,como eu geralmente faço.
 Mas eu sou curiosa, e essa era uma chance única, talvez nunca mais houvesse outra. Muitas pessoas perderiam essa oportunidade por nem perceberem que ela existe, mas eu precisava entrar na casa. E entrei.


Continua.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Fotos

Entrei no quarto, uma leve brisa passou por minhas pernas. Não abro aquela porta há muito tempo. Na minha frente, pelas janelas abertas, podia-se ver as ondas do mar molhando a areia. E diferentemente de todos os outros dias que já vivi aqui, hoje estava exepcionalmente frio. E as nuvens faziam questão de rondar o céu , nos olhando com uma expressão brava. De alguma maneira, elas não precisavam de ninguem hoje.
Nas paredes pintadas de um azul claríssimo, notava-se três delicadas flores desenhadas em branco. Tudo planejado no mais minucioso detalhe, em cima da comôda branca , estavam os três pequenos e silênciosos porta retratos. Algo que nunca fez o menor sentido, mas que ainda assim não sai de lá. Algo que eu custo a lembrar, algo que me forçam a olhar, algo que já não me interessa mais.
No primeiro porta retrato, as três mulheres de uniformes brancos e cruzes vermelhas em seus bolsos me davam ânsia. Seus rostos de espanto, suas botas brancas batendo no chão frio , as paredes de vidro, cortinas brancas, lençois brancos. E a minha frente, dois enormes olhos azuis, olhos com medo, louros cabelos ralos e um rosto macio.
No segundo porta retrato havia uma familia. Estavam todos de costas, eles andavam na praia, o que me entrigava, eram os passos grandes e apressados que eles davam. O homem carregava uma criança no colo, a luz do pôr do sol iluminava seus corpos. E a mulher da imagem também aparentava querer saber quem eram aquelas pessoas ,assim como eu.
No último porta retrato também havia uma familia. Mas eu podia ver perfeitamente bem os seus rostos, mas aquilo nada me lembrava. Estavam todos ao lado de uma balança em um parque. O bebê estava sendo balançado pelo homem, e a mulher estava sorrindo. Todos pareciam felizes. E ainda assim nada que eu me sinta familiar.
Toda vez que olhos para essas imagens, é como se fosse a primeira vez. Nada nelas me faz sentir algo, nada nelas me faz sentir amor.
Saí de perto da comôda ,e fui ao lado do berço de madeira branca que está sempre coberto por uma renda clarissíma. Joguei aquela renda no chão e passei a mão pelos minúsculos e macios cobertores beges que estavam ali. Peguei o papel amarelado que estava guardado e li a palavra Óbito. O vento leva o papel de minhas mãos.
Um homem abre a porta do quarto, reparo que ele é muito parecido com o homem dos portas retrato, um tanto quanto mais velho, apesar de muito parecido. Esse homem vem e me abraça ,lágrimas saem dos seus olhos, e ele me leva pra fora do quarto. Olho novamente para as fotos, se algo vem a minha mente? Não. Mas quem sabe da próxima vez