Entrei no quarto, uma leve brisa passou por minhas pernas. Não abro aquela porta há muito tempo. Na minha frente, pelas janelas abertas, podia-se ver as ondas do mar molhando a areia. E diferentemente de todos os outros dias que já vivi aqui, hoje estava exepcionalmente frio. E as nuvens faziam questão de rondar o céu , nos olhando com uma expressão brava. De alguma maneira, elas não precisavam de ninguem hoje.
Nas paredes pintadas de um azul claríssimo, notava-se três delicadas flores desenhadas em branco. Tudo planejado no mais minucioso detalhe, em cima da comôda branca , estavam os três pequenos e silênciosos porta retratos. Algo que nunca fez o menor sentido, mas que ainda assim não sai de lá. Algo que eu custo a lembrar, algo que me forçam a olhar, algo que já não me interessa mais.
No primeiro porta retrato, as três mulheres de uniformes brancos e cruzes vermelhas em seus bolsos me davam ânsia. Seus rostos de espanto, suas botas brancas batendo no chão frio , as paredes de vidro, cortinas brancas, lençois brancos. E a minha frente, dois enormes olhos azuis, olhos com medo, louros cabelos ralos e um rosto macio.
No segundo porta retrato havia uma familia. Estavam todos de costas, eles andavam na praia, o que me entrigava, eram os passos grandes e apressados que eles davam. O homem carregava uma criança no colo, a luz do pôr do sol iluminava seus corpos. E a mulher da imagem também aparentava querer saber quem eram aquelas pessoas ,assim como eu.
No último porta retrato também havia uma familia. Mas eu podia ver perfeitamente bem os seus rostos, mas aquilo nada me lembrava. Estavam todos ao lado de uma balança em um parque. O bebê estava sendo balançado pelo homem, e a mulher estava sorrindo. Todos pareciam felizes. E ainda assim nada que eu me sinta familiar.
Toda vez que olhos para essas imagens, é como se fosse a primeira vez. Nada nelas me faz sentir algo, nada nelas me faz sentir amor.
Saí de perto da comôda ,e fui ao lado do berço de madeira branca que está sempre coberto por uma renda clarissíma. Joguei aquela renda no chão e passei a mão pelos minúsculos e macios cobertores beges que estavam ali. Peguei o papel amarelado que estava guardado e li a palavra Óbito. O vento leva o papel de minhas mãos.
Um homem abre a porta do quarto, reparo que ele é muito parecido com o homem dos portas retrato, um tanto quanto mais velho, apesar de muito parecido. Esse homem vem e me abraça ,lágrimas saem dos seus olhos, e ele me leva pra fora do quarto. Olho novamente para as fotos, se algo vem a minha mente? Não. Mas quem sabe da próxima vez
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