terça-feira, 27 de julho de 2010

Pianinho - Capitulo 2

O olhar frio de Rodrigo percorreu seu rosto, a menina entra no lar observando a bagunça que se espalhava por toda parte. Copos e garrafas vazias jogadas pelas mesas e os tapetes que um dia já foram brancos, estavam repletos de manchas vermelhas, onde certamente derrubaram vinho, livros caídos no chão, cacos de vidro espalhados pelos cantos da sala. Line já percebera que houve uma festa naquela casa, ela se virou para Rodrigo, que estava completamente pálido e com enormes e escuras olheiras, o garoto não parecia nada bem. E para interromper o silêncio a menina o perguntou:


- Foi boa a festa ontem?

Em resposta, silêncio. Line sabia que nunca seria convidada para nenhuma festa que ele desse, mas sempre lhe vinha um gosto amargo na boca quando sabia que não havia participado. Rodrigo continuava sem falar palavra alguma, a garota virou os olhos para o relógio preso na parede, suficientemente alto para que os convidados da festa de ontem não o destruíssem. Os ponteiros indicavam 10:42 da manhã, preocupada com seu ’amigo’, Line o pergunta:

- Você já comeu? – Os olhos do garoto viram-se para o seu rosto.

- Ainda não. – Sua voz rouca e cansada percorreu pela sala bagunçada, ele parecia mesmo muito exausto. Line começou a se perguntar se deveria ou não ter ido visitá-lo, mas resposta nenhuma passou por sua mente. E ao perceber o esforço que Rodrigo fez para respondê-la, a garota desistiu de tentar conversar com ele, apenas assentiu com a cabeça.

-Ok, vamos lá.

Ela o empurrou escadas a cima, e o levou ao seu quarto que para sua surpresa, estava arrumado, e então passou pela sua cabeça, que a festa se limitara apenas ao andar de baixo. O que de certa maneira a deixava feliz em pensar que Rodrigo não dormira com nenhuma garota esta noite, Line se sentia estranha ao ter esses pensamentos, mas era realmente isso que ela sentia. A garota pediu para ele deitar-se, e acostumado com os seus cuidados o menino assim fez, ela pegou um cobertor que estava dobrado em seus pés, e o esticou até a cintura de Rodrigo que naquele momento, mais parecia uma criança doente. Ela se levantou da cama e fechou as longas cortinas azuis, deixando somente a luz do quarto acesa.

Line desceu as escadas e foi até a cozinha abrindo os armários, a garota encontrou uma caixa de cereal e o despejou em uma tigela azul. Abriu a geladeira, pegou a caixa de leite e misturou com o cereal, pegou uma colher na gaveta, encheu um copo com água e os colocou em cima de uma bandeja. Ela foi até o quarto do menino e colocou a bandeja em seu colo, se levantou e andou até o armário do banheiro, e pegou o primeiro remédio para dor de cabeça que encontrou, Dipirona. Retirou dois comprimidos da cartela e voltou ao quarto onde o garoto estava sentado na cama, comendo o cereal.

Line entregou os comprimidos na mão dele, em pé ao seu lado assistiu Rodrigo tomar o remédio e voltar a comer. Ele devolveu a bandeja a ela, que a colocou em cima da escrivaninha do computador, e continuou a observar o menino que esticou as pernas, se cobriu até os ombros e fechou os olhos. A garota apagou a luz, e esperou o menino cair no sono.

Minutos depois, certa de que Rodrigo já estava dormindo, Line chegou perto de seu rosto, lhe deu um beijo na testa e se retirou do quarto. Saiu daquela casa certa de que a qualquer momento a empregada chegaria e arrumaria toda a destruição que ele causara. A menina olha em seu relógio - 11:57 - passou em sua cabeça que ela poderia ter ficado um pouco mais de tempo lá, afinal, chegaria em casa e não teria mais nada a fazer mesmo. Ela continuou a andar até a estação de metrô, e assim voltara pra casa naquele sábado cinzento.

continua...

Pianinho - Capitulo 1

A casa estava silenciosa, era sábado de manhã e Line já se acostumara com isso. Há quase seis anos seus pais só aparecem em casa à noite e levantam muito cedo para trabalhar, algo que Line sempre achou muito inútil, afinal, eles já viviam muito bem. Mas a solidão foi algo que ela se acostumou, “Não é possível sentir falta de alguém que não se conhece” era isso que Line dizia pra si mesma. Os corredores brancos estavam impecavelmente limpos, como sempre. Line pega o dinheiro que estava em cima da mesa, calça suas botas e sai porta a fora.


A menina põe as mãos nos bolsos do casaco, fazia muito frio em São Paulo, e desacostumada Line saiu de casa sem luvas. Uma forte brisa batia em seu rosto, a fazendo fechar os olhos.

Enquanto andava pelas ruas, ela observava um casal que andava em sua frente há algum tempo. Eles estavam de mãos dadas, e o frio não parecia os incomodar pois estavam tão felizes rindo de alguma coisa. Line sentia uma ponta de vontade de perguntá-los o que era tão engraçado, mas algo a dizia que isso não seria muito educado. A garota vira a esquina e entra na estação de metrô.

Suas mãos estavam tremulas como sempre, isso acontecia todo sábado antes de chegar ao seu destino. Ela estava sentada, e podia ouvir o que o homem ao seu lado escutava pelos fones de ouvido, os rostos de todas as pessoas lá presentes, estavam tristes e apagados. Line já estava preparada para o que aconteceria em breve.

Ao sair da estação, um vento forte machucava seu rosto. E a garota prestava atenção nas pessoas ao seu redor, o frio a fazia querer voltar para casa, mas ela tinha seu compromisso. Nada a faria recuar.

Andou por alguns minutos nas ruas daquele bairro muito bem conhecido. E ao parar em frente a uma enorme casa branca sem portão algum mas muito bem escondida pelos grandes arbustos podados, ela anda jardim a dentro e cessa em frente a uma grande porta branca de maçaneta dourada.

Vagarosamente Line colocou a mão na capainha e a pressionou. Como de costume nada acontecera, nenhum movimento dentro da casa, nem ao menos uma lâmpada acendera. A garota já havia se preparado para sua longa jornada em frente aquela porta apertando a campainha. Ela não desistiria, já estava acostumada em ficar esperando do lado de fora daquela casa. O frio já não a incomodava, e ela não estava cansada, sabia que em algum momento ele desistiria. E assim se fez, após alguns minutos apertando a campainha freneticamente, o garoto cedeu e foi abrir a porta para que Line pudesse entrar em sua casa.

continua...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Certezas

Não é preciso abrir os olhos, você já sabe onde está. Você está na sua casa, trancado no seu quarto, enrolado em um cobertor e deitado na sua cama.


Não é preciso abrir os olhos, você já sabe o que está acontecendo. Está chovendo lá fora, o cobertor está te pinicando, seus pais já foram trabalhar, um de seus travesseiros está caído no chão e o outro está pesando em seu tórax.

Não é preciso abrir os olhos, você já sabe o que vai acontecer. Seus pais irão te ligar para que garantir que está acordado, você descerá as escadas, ligará a televisão e começará a assistir secretamente uma maratona de desenhos animados, tomará seu café da manhã e provavelmente voltará a dormir.

Não é preciso abrir os olhos, você lembra do que aconteceu ontem a noite. Espere, você não lembra de absolutamente nada do que acontecera.

Você abre os olhos, e não está no seu quarto, não há um travesseiro caído no chão. As janelas estão escancaradas. E no seu peito nu, uma garota ruiva dorme. Como quem ainda não percebera que o garoto não era seu travesseiro