O olhar frio de Rodrigo percorreu seu rosto, a menina entra no lar observando a bagunça que se espalhava por toda parte. Copos e garrafas vazias jogadas pelas mesas e os tapetes que um dia já foram brancos, estavam repletos de manchas vermelhas, onde certamente derrubaram vinho, livros caídos no chão, cacos de vidro espalhados pelos cantos da sala. Line já percebera que houve uma festa naquela casa, ela se virou para Rodrigo, que estava completamente pálido e com enormes e escuras olheiras, o garoto não parecia nada bem. E para interromper o silêncio a menina o perguntou:
- Foi boa a festa ontem?
Em resposta, silêncio. Line sabia que nunca seria convidada para nenhuma festa que ele desse, mas sempre lhe vinha um gosto amargo na boca quando sabia que não havia participado. Rodrigo continuava sem falar palavra alguma, a garota virou os olhos para o relógio preso na parede, suficientemente alto para que os convidados da festa de ontem não o destruíssem. Os ponteiros indicavam 10:42 da manhã, preocupada com seu ’amigo’, Line o pergunta:
- Você já comeu? – Os olhos do garoto viram-se para o seu rosto.
- Ainda não. – Sua voz rouca e cansada percorreu pela sala bagunçada, ele parecia mesmo muito exausto. Line começou a se perguntar se deveria ou não ter ido visitá-lo, mas resposta nenhuma passou por sua mente. E ao perceber o esforço que Rodrigo fez para respondê-la, a garota desistiu de tentar conversar com ele, apenas assentiu com a cabeça.
-Ok, vamos lá.
Ela o empurrou escadas a cima, e o levou ao seu quarto que para sua surpresa, estava arrumado, e então passou pela sua cabeça, que a festa se limitara apenas ao andar de baixo. O que de certa maneira a deixava feliz em pensar que Rodrigo não dormira com nenhuma garota esta noite, Line se sentia estranha ao ter esses pensamentos, mas era realmente isso que ela sentia. A garota pediu para ele deitar-se, e acostumado com os seus cuidados o menino assim fez, ela pegou um cobertor que estava dobrado em seus pés, e o esticou até a cintura de Rodrigo que naquele momento, mais parecia uma criança doente. Ela se levantou da cama e fechou as longas cortinas azuis, deixando somente a luz do quarto acesa.
Line desceu as escadas e foi até a cozinha abrindo os armários, a garota encontrou uma caixa de cereal e o despejou em uma tigela azul. Abriu a geladeira, pegou a caixa de leite e misturou com o cereal, pegou uma colher na gaveta, encheu um copo com água e os colocou em cima de uma bandeja. Ela foi até o quarto do menino e colocou a bandeja em seu colo, se levantou e andou até o armário do banheiro, e pegou o primeiro remédio para dor de cabeça que encontrou, Dipirona. Retirou dois comprimidos da cartela e voltou ao quarto onde o garoto estava sentado na cama, comendo o cereal.
Line entregou os comprimidos na mão dele, em pé ao seu lado assistiu Rodrigo tomar o remédio e voltar a comer. Ele devolveu a bandeja a ela, que a colocou em cima da escrivaninha do computador, e continuou a observar o menino que esticou as pernas, se cobriu até os ombros e fechou os olhos. A garota apagou a luz, e esperou o menino cair no sono.
Minutos depois, certa de que Rodrigo já estava dormindo, Line chegou perto de seu rosto, lhe deu um beijo na testa e se retirou do quarto. Saiu daquela casa certa de que a qualquer momento a empregada chegaria e arrumaria toda a destruição que ele causara. A menina olha em seu relógio - 11:57 - passou em sua cabeça que ela poderia ter ficado um pouco mais de tempo lá, afinal, chegaria em casa e não teria mais nada a fazer mesmo. Ela continuou a andar até a estação de metrô, e assim voltara pra casa naquele sábado cinzento.
continua...
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